sexta-feira, 25 de abril de 2014

Série Corujas VII

Buraqueiras do sítio - Hortolândia, Fotografia,  2014.


"Hoje, eu acho que ser paciente é a maior virtude do professor. Não a clássica paciência de não esganar um adolescente numa última aula de sexta-feira, mas a paciência de saber que, como diz Rubem Alves, plantamos carvalhos e não eucaliptos. Nossa tarefa é constante, difícil, com resultados pouco visíveis a médio prazo. Porém, se você está lendo este texto, lembre-se: houve uma professora ou um professor que o alfabetizou, que pegou na sua mão e ensinou, dezenas de vezes, a fazer a simples curva da letra O. Graças a essas paciências, somos o que somos. O modelo da paciência pedagógica é a recomendação materna para escovar os dentes: foi repetida quatro vezes ao dia, durante mais de uma década, com erros diários e recaídas diárias. As mães poderiam dizer: já que vocês não querem nada com o que é melhor para vocês, permaneçam do jeito que estão que eu não vou mais gritar sobre isso (típica frase de sala de aula...). sem essas paciências, seríamos analfabetos e banguelas. Não devemos oferecer ao nosso aluno, especialmente ao aluno que não merece e nem quer esta paciência – este é o que necessita urgentemente dela. Doente precisa do médico, não o sadio. O aluno-problema precisa de nós, não o brilhante e limpo discípulo da primeira carteira.


É um erro que já cometi muito. Um aluno não me ouve. Não faz nada do que eu peço. Diante de qualquer tentativa, sutil ou forte, ele reage com indiferença absoluta. Eu insisto, chamo para conversar, estimulo, repreendo. Nada. Absolutamente nada. Todos os colegas dizem o mesmo: “esse aí não quer nada com nada”.



Parece que o aluno, o Dna, os colegas, o sistema e tudo o mais indicam que devemos desistir. Afinal, o que eu posso fazer com apenas aquele tempinho e tendo tantos estudantes para atender? Nesse momento, queria dizer para mim e ler muitas vezes para mim e aproveitar para dizer a vocês: não desistam. Desistir de um aluno e declarar que nada mais pode ser feito é um fracasso doloroso para todos, para o professor inclusive. Acho que há momento para desligar as máquinas num centro de tratamento intensivo. Acho que há momentos em que a doença vence. Mas gostaria, na minha vida profissional, que eles fossem escassos. É a vitória da morte, num hospital ou numa sala de aula.



O mais dramático é que, por vezes, é o aluno que nos pede para desistir. Ouvi tanto isso deles. “Não adianta, professor. Eu não quero aprender...” encare sempre esse desafio. Quem não quer é o que mais precisa. Volto para a escova de dentes... "



Leandro Karnal

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Fotografia, ingredientes fundamentais

Retratos anônimos -  Hortolândia, Fotografia, 2014


Olhar....
Paixão Olhar...
Ousadia Paixão Olhar...


Não são os únicos, mas com certeza são indispensáveis. Quem vos fala não é alguém renomado e experiente na arte de fotografar, mas alguém que levanta de madrugada para ir ao trabalho, sai de casa atrasada e ainda assim volta para pegar a câmera porque não pode deixar passar uma lua se despedindo num céu já quase claro. 
A fotografia começa com admiração, e a admiração começa no olhar. O primeiro passo é olhar e se encantar extremamente com imagens que dezenas de outras pessoas também estão vendo, mas não dão importância. Depois essas imagens te tomam de uma maneira que você se sente obrigado a registrar, você quer eternizar aquilo, é uma obsessão, você pode passar dias pensando numa foto que gostaria de ter tirado e é ai que entra a paixão.
Mas ainda falta algo. Olhar e apaixonar-se somente, pode resultar numa espécie de amor platônico. É necessário agir, é necessário atrever-se, é necessário arriscar-se, é necessário ousar, afinal você nunca sabe se o seu clique, seu ângulo, sua respiração vão estar sintonizados com a câmera. Você pode não saber também se sua imagem estará de acordo com a legislação vigente, você também não terá certeza que sua foto encantará outras pessoas como te encantou, nem que você mesmo continuará a gostar dessa imagem nos próximos cinco minutos.

domingo, 13 de abril de 2014

Capitu sob novos olhos

Alice, Desenho (lápis de cor), 2013

Quem é Capitu que nos olha em preto e branco em diferentes faces?
Capitu é um fio do tempo da infância até a maturidade? O ser presença em silêncio?
Quem é Capitu nos tempos? Figura do feminino que não revela nem se identifica. Está. É.  Quem? Todas e nenhuma?
Território de impressões guardadas e não reveladas, não por segredo, mas falar para quê?  Não reveladas e material que compõe a tessitura de sentidos e compreensões. Quanto conhecimento guarda cada Capitu, dai o olhar franco e direto sempre?  E olhar que estende sempre um pouco mais e mais para adiante a fronteira da ignorância. Sim porque o mundo de Capitu é vasto, mas mais vasto o mundo já disse o poeta.
Grande coragem de não ter defesa e olhar.  Grande coragem em ousar a experiência de ser.
Ser quem? Talvez nem Machado de Assis o soubesse ao fazer dessa personagem um pedaço do mistério que é a própria Vida que nos abisma e espanta sempre se não estivermos entorpecidos pelas máscaras de identidade que nos impedem de olhar, de ser presença, ser território de compreensões e silêncios para a alegria e encontro.

É ela o espelho de nosso silêncio e alegre porque em comunhão com todos? Ela não está só porque está conosco, será isso seu mistério?


Enillis