sábado, 16 de agosto de 2014

Ah se você soubesse

Thiago, desenho (lápis de cor sobre papel) 2013.

Ah, se você soubesse quantas noites eu já sonhei com esses olhos, de um castanho transparente que não se vê por aí, e quantas vezes eu estremeci ao sentir você perto de mim, ah se você soubesse que quando mostra seu carinho por mim coloca poesia em tudo que faço por dias, ah se você soubesse...
Ah se você pudesse imaginar quanta inspiração é capaz de me causar, e quantas músicas eu cantaria pra você se tivesse o dom de cantar e quantos poemas eu te dedicaria se eu tivesse o dom da poesia, e quantas vezes eu te desenharia se você posasse pra mim...
Ah se você pudesse supor o quanto a sua voz no meu ouvido é capaz de despertar os meus sentidos, ah se você pudesse supor o quanto cada dia com você é mais intenso, ah se você pudesse supor...
 

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Que quer dizer cativar?

Instituto de Artes - Unicamp, Fotografia, 2010.


"(...) Mas aconteceu que o pequeno príncipe, tendo andado muito tempo pelas areias, pelas rochas e pela neve, descobriu, enfim, uma estrada. E as estradas vão todas em direção aos homens.
- Bom dia! - disse ele.
Era um jardim cheio de rosas.
- Bom dia! - disseram as rosas.
Ele as contemplou. Eram todas iguais à sua flor.
- Quem sois? - perguntou ele espantado.
- Somos as rosas - responderam elas.
- Ah! - exclamou o principezinho...
E ele se sentiu profundamente infeliz. Sua flor lhe havia dito que ele era a única de sua espécie em todo o Universo. E eis que havia cinco mil, iguaizinhas, num só jardim!
"Ela teria se envergonhado", pensou ele, "se visse isto... Começaria a tossir, simularia morrer, para escapar ao ridículo. E eu seria obrigado a fingir que cuidava dela; porque senão, só para me humilhar, ela seria bem capaz de morrer de verdade..."
Depois, refletiu ainda: "Eu me julgava rico por ter uma flor única, e possuo apenas uma rosa comum. Uma rosa e três vulcões que não passam do meu joelho, estando um, talvez, extinto para sempre. Isso não faz de mim um príncipe muito poderoso..."
E, deitado na relva, ele chorou.
E foi então que apareceu a raposa:
- Bom dia - disse a raposa.
- Bom dia - respondeu educadamente o pequeno príncipe, olhando a sua volta, nada viu.
- Eu estou aqui - disse a voz, debaixo da macieira...
- Quem és tu? - Perguntou o principezinho. - Tu és bem bonita...
- Sou uma raposa - disse a raposa.
- Vem brincar comigo - propôs ele. - Estou tão triste...
-Eu não posso brincar contigo - disse a raposa. - Não me cativaram ainda.
- Ah! Desculpa - disse o principezinho.
Mas, após refletir, acrescentou:
- Que quer dizer "cativar"?
- Tu não és daqui - disse a raposa. - Que procuras?
- Procuro os homens - disse o pequeno príncipe. - Que quer dizer "cativar"?
- Os homens - disse a raposa - têm fuzis e caçam. É assustador! Criam galinhas também. É a única coisa que fazem de interessante. Tu procuras galinhas?
- Não - disse o príncipe. - Eu procuro amigos. Que quer dizer "cativar"?
- É algo quase sempre esquecido - disse a raposa. Significa "criar laços"...
- Criar laços?
- Exatamente - disse a raposa. - Tu não és ainda para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu também não tens necessidade de ti. E tu também não tens necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo...
- Começo a compreender - disse o pequeno príncipe. - Existe uma flor... eu creio que ela me cativou... (...)"


Trecho extraído do livro O Pequeno Príncipe de Antoine de Saint-Exupéry.

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Falaria Capitu?

Miriany, Desenho (lápis de cor sobre papel), 2013.
 
Se pudesse falar o que diria Capitu? Que passaria na mente e na alma daquela que possuía os olhos de ressaca? Que diria de si? Talvez seus olhos tenham ofuscado sua voz... Que distância há entre o coração e a língua? Para muitos uma distância muito pequena, para outros quilômetros, há aqueles que tem o coração mais próximo das mãos do que da língua e gritam através de criações confissões que dificilmente serão compreendidas e decifradas, pobres daqueles que acreditam esgotar as possibilidades de compreensão de um trabalho artístico. Esses que tem o coração tão próximos as mãos também amam com os dedos, procuram detalhes do ser amado que outros não se interessariam.
Por que muitos artistas sentem dificuldades em falar sobre o seu trabalho? Porque não podem. Alguns explicam mostrando, explicam com as mãos. Afinal falar bem nem sempre é sinal de ser compreendido, o interlocutor é imprevisível.
Por que tantos artistas alcançam o ápice de seu trabalho durante uma crise?
Não ousaria supor o que passaria na mente de Capitu, mas certamente tinha o coração mais próximo dos olhos...

terça-feira, 22 de julho de 2014

Não te rendas (Série Corujas IX)

 Óleo sobre painel, 2013


Não te rendas, ainda há tempo
Para voltar e começar de novo,
Aceitar tuas sombras,
E enterrar teus medos,
Soltar o lastro,
Retomar o voo.

Não te rendas, pois a vida é
Continuar a viagem,
Perseguir os sonhos,
Destravar o tempo,
Retirar os escombros,
E destampar o céu.

Não te rendas, por favor, não desistas,
Ainda que o frio queime,
O medo morda,
E o sol se esconda,
Ainda que se cale o vento,
Ainda há fogo em tua alma,
Ainda há vida em teus sonhos.

Porque a vida é tua, e teu também é o desejo,
Porque o quer, e porque te quero,
Porque existe o vinho, e o amor é certo,
Porque não há feridas que o tempo não cure.

Abrir as portas,
Tirar as trancas,
Abandonar as muralhas que te protegeram,
Viver a vida e aceitar o desafio,
Recuperar o riso,
Ensaiar uma canção,
Baixar a guarda e estender as mãos,
Despregar as asas,
E tentar de novo,
Celebrar a vida e retomar os céus.

Não te rendas, por favor, não desistas,
Ainda que o frio queime,
O medo morda,
E o sol se esconda,
Ainda que se cale o vento,
Ainda há fogo em tua alma,
Ainda há vida em teus sonhos.
Porque cada dia é um novo começo,
Porque esta é a hora e o melhor momento,
Porque não estais só, e porque eu te amo.

Tradução do poema "No te rindas" de Mario Benedetti



sábado, 12 de julho de 2014

Independência ou morte

Esperando o sol nascer, Hortolândia, Fotografia, 2014.

Chego a conclusão que uma vitória não é uma sucessão de acertos e sim uma sucessão de derrotas diárias, doloridas e amargas derrotas. O processo é mais ou menos esse:

Primeiras derrotas: a gente chora, grita, se descabela e pensa que vai morrer.

Derrotas seguintes: a gente sente, mesmo não querendo demostrar o desapontamento é visível, acredito que esta é a fase mais difícil, já que a vontade de desistir é mais forte agora, a insegurança bate a porta, você pensa "eu vivi até hoje sem ter alcançado este objetivo, se eu desistir agora continuarei vivendo depois...", e quando você já tentou outras vezes é ainda pior ter que engolir mesmo sem aceitar.

Próximas derrotas: você cria uma certa imunidade, a derrota não te entristece mais, você já é capaz de refletir sobre o que esta acontecendo, até onde seu comportamento, suas atitudes podem estar colaborando para seu fracasso.

Fase final: você já é capaz de corrigir os seus erros e pode até rir deles, mais um pouco e você consegue preveni-los.

Poxa! Como essa fase final demora... e como é difícil não desistir. Infelizmente todos estamos fardados a inúmeras derrotas, mas a vitória só pertence a quem não desiste.


terça-feira, 8 de julho de 2014

Casulos, lagartas e borboletas...

Óleo sobre tela, 2014.

Acredito que seja típico do Homem, ao alcançar uma vitória relembrar o caminho percorrido até então, todas as dificuldades e incertezas... É muito comum sentir medo de nunca conseguir, quando se esta próximo ao objetivo. As vezes uma curva atrapalha a visão, sem saber o que irá encontrar pela frente muitos desistem. Refletindo ainda a respeito do texto do último post, me pergunto, será que a lagarta sabe quando esta para se transformar em borboleta?
Vivemos em média 80 anos, podendo se estender aos 120... e como os primeiros 10, 20 e 30 anos nos parecem tão definitivos, dá impressão que tudo que for feito nesta fase (ou o que não for feito) definirá o resto de nossas vidas sem chances de reversão. E ainda há tanto para viver... É possível que nesta fase nem sequer tenhamos ainda deixado os nossos casulos, e queremos voar como borboletas cansadas, sem perspectiva...
Há tantos jardins, muitos perfumes, infinitas flores...

sexta-feira, 20 de junho de 2014

A Educação segundo Rubem Alves

Ana Luíza (série Capitu), Fotografia, 2012. 

"O corpo é um lugar fantástico onde mora, adormecido um universo inteiro. Como na terra moram adormecidos os campos e suas mil formas de beleza, e também as monótonas e previsíveis monoculturas; como na lagarta mora adormecida uma borboleta, e na borboleta, uma lagarta; como nos sapos moram os príncipes e nos príncipes moram os sapos; como em obedientes funcionários que fazem o que deles se pede moram Leonardos que voam pelos espaços sem fim dos sonhos... 
Tudo adormecido... O que vai acordar é aquilo que a Palavra vai chamar. As palavras são entidades mágicas, potências feiticeiras, poderes bruxos que despertam os mundos que jazem dentro dos nossos corpos, num estado de hibernação, como sonhos. Nossos corpos são feitos de palavras... Assim, podemos ser príncipes ou sapos, borboletas ou lagartas, campos selvagens ou monoculturas, Leonardos ou monótonos funcionários...
Diferentes dos corpos dos animais, que nascem prontos ao fim de um processo biológico, os nossos corpos, ao nascer, são um caos grávido de possibilidades, à espera da Palavra que fará emergir, do seu silêncio, aquilo que ela invocou. Um infinito e silencioso teclado que poderá tocar dissonâncias sem sentido, sambas de uma nota só, ou sonatas e suas incontáveis variações... A este processo mágico pelo qual a Palavra desperta os mundos adormecidos se dá o nome de educação. Educadores são todos aqueles que tem este poder."


Rubem Alves